As viúvas na Índia

Hoje vou fazer esse post,em especial,pela recomendação da Mari.

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“Quase tudo que fazemos parece insignificante, mas é muito importante que façamos. Você precisa ser a mudança que você deseja ver no mundo.” Mahatma Gandhi.

Ontem fui assistir ao filme Water, o último da trilogia política da cineasta Deepa Mehta (os outros são Fire e Earth), sobre a vida das viúvas na india. Fiquei chocada. Já tinha ouvido falar na situação dessas mulheres, mas ainda assim, o filme é uma saculejada na gente e bota nossos problemas cotidianos na sua exata dimensão.

Pesquisando, hoje, sobre o tema, pra escrever esse post, descobri que ontem estava sendo celebrado o “Dia Internacional das Viúvas”, instituído pelas Nações Unidas, justamente para lembrar ao mundo as crueldades cometidas contra essas mulheres (não apenas indianas, mas de muitos outros países), cujo único crime cometido foi se tornar viúva, como se pudessem se responsabilizar pela vida de seus companheiros.

“Water” não é um filme revolucionário em sua linguagem, mas é uma história muito bem contada e extremamente comovente. Ao acabar, precisei de uns bons minutos sentadinha no escuro do cinema, pra me recompor e tentar dissipar aquele nó na garganta. water_india

Apesar de ser uma obra de ficção, que se passa há quase 70 anos, infelizmente, essa ainda é a realidade de muitas mulheres na India. E isso é o que é mais doloroso.

O filme se passa em 1938, na India Colonial, onde os poderosos (britânicos e indianos) vêem a ascenção de Mahatma Gandhi, com suas idéias de liberdade e de mudança das tradições arcaicas às quais os indianos ainda se agarravam. As viúvas já não eram forçadas a queimar numa fogueira, com a morte do marido, mas ainda tinham que pagar, vivendo em total ostracismo e miséria, por toda vida.

Tudo começa com a morte do marido de Chuyia, uma menininha esperta de oito anos de idade, que nem entende que é casada.

Ao se tornar “viúva”, Chuyia tem suas pulseiras quebradas, seu cabelo raspado, perde todas suas roupas e é vestida com um sari branco, que será sua única veste, para diferenciá-la, afinal, ela agora é uma pária, “impura” e não pode ter contato com outras mulheres e crianças.

Os pais deixam Chuyia numa casa de viúvas hindu, onde deve viver o resto dos seus dias em penitência.

Em 1938, e ainda hoje, em muitas lugares da India, a viúva é vista como um peso e como uma mulher sexualmente perigosa. A família do noivo quer vê-la distante, para poder tomar as propriedades do seu marido, e não tem interesse em assumir a responsabilidade de sustentá-la. Sua própria família, após o seu casamento, sente-se livre de qualquer responsabilidade em relação a ela.

Por todo preconceito e superstições que cercam uma mulher viúva, ela também não consegue trabalho para se sustentar e acaba tendo mesmo que viver nessas Casas de Viúvas (prédios centéntários, caindo aos pedaços), por toda vida. Para se “purificar”, precisa abandonar qualquer vínculo com prazer e viver em sofrimento. Dorme no chão, repete canções e orações seis horas por dia, e não pode, sequer, comer frituras, consideradas alimentos “quentes”. Estima-se que existam 20 mil viúvas, mendigando, apenas à beira do rio Ganges.

casadasviuvas2Aos poucos, vamos conhecendo as mulheres com quem Chuyia deverá conviver. A velhinha (foto)que está na casa desde os sete anos e cujo único sonho é comer, novamente, os docinhos que provou na sua festa de casamento (o marido morreu um mês depois). Shakuntala, a mulher de meia idade, esperta, inteligente e que sofre ao perceber que está envelhecendo e está sempre dividida entre a revolta pela sua situação e o medo por não se comportar como deveria.

Tem a poderosa Didi, que comanda a casa e tem regalias que as outras não têm, e a belíssima Kalyani. Aos 17 anos de idade (está lá desde os oito), ela é a única mulher que tem a permissão para usar cabelos longos e que, sustenta o “luxo” de Didi e a Casa de Viúvas, sendo levada de barco, no escuro da noite, pelo eunuco gulabi, para prostituição.

A chegada de Chuyia, o aparecimento de um lindíssimo indiano nacionalista, o amor de Kalyani, a revolta de Shakuntala e a ascenção de Ghandi, mexem com a Casa de Viúvas… mas não existem milagres. O resto, só vendo o filme…

A realidade atual

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Segundo o censo de 1991, 8% de todas as mulheres da India são viúvas, o que significa cerca de 34 milhões de pessoas. Como o costume é o casamento das meninas muito novinhas, 50% das viúvas têm menos de 50 anos de idade.

No grupo acima de 60 anos, 64% das mulheres são viúvas, enquanto que apenas 6% dos homens são viúvos. Essa diferença brutal de gênero existe por causa da alta incidência de viúvos que se casam novamente, enquanto que um novo casamento, na prática, continua sendo uma opção bastante improvável para as mulheres.

Apesar dos números, sabe-se pouco sobre a vida dessas mulheres, na India. A marginalização as torna invisíveis. O que sabemos é que elas vivem em completa pobreza, desemprego, sem acesso aos meios de produção, sem educação formal e sofrendo por superstições que ainda estão bastante arraigadas na cultura indiana.

Já em 1956, um ato hindu estabeleceu que as viúvas devem ser consideradas iguais a todas as mulheres, mas a tradição fala mais alto.

Por causa de todas privações que passam, as viúvas têm um índice de mortalidade 85% maior que as mulheres casadas. Apesar das péssimas condições dessas Casas de Viúvas, muitas preferem viver nelas do que ficar com a família do ex-marido, sendo constantemente abusadas sexual e fisicamente.

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As Casas de Viúvas são empreendimentos mercenários, existem denúncias de que, apesar das mulheres viverem em completa miséria, os administradores fazem muito dinheiro, pedindo ajuda financeira e vendendo serviços sexuais das jovens viúvas.

“Sem um homem ao seu lado, uma mulher não tem respeito na sociedade indiana. Isso é parte da cultura patriarcal”, afirma uma militante do movimento de mulheres.

Parece incrível, mas isso tudo continua acontecendo hoje. Será que a gente não tem mesmo nada a ver com isso? Quando eu fui pra India, escrevi sobre a situação da mulher por lá (vejam ai abaixo), falando sobre as mulheres queimadas por causa dos dotes, e uma criatura me criticou porque eu devia me preocupar com as mulheres do Brasil.

Não consigo estabelecer fronteiras para a humanidade. Me preocupo do mesmo jeito com minhas amigas que vivem em favelas, no Brasil as viúvas indianas e as mulheres com AIDS na Africa. Somos todas irmãs.

O que é que a gente pode fazer? falar no assunto, procurar saber o que fazem os grupos de mulheres. Se você faz doação, considerar doar para grupos que trabalham com essas mulheres. No mais, pelo menos se sensibilizar, acho que é um bom começo.

E o nó na garganta, continua aqui… isso é o que acontece quando a gente vê um filme que faz pensar…

Bom, esse texto foi feito pela Denise  http://sindromedeestocolmo.com/ (ótimos textos),vale uma visita,  indicação da Mari e fiquei realmente chocada com o que acontecia com as viúvas na India nos anos 30.

É triste que onde moro nem cinema existe,então perco a oportunidade de ver muitos filmes,mas “Water” (As margens do Rio Sagrado) vale a pena assistir, já estou providenciando aqui.

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Sobre brurobiati

Pisciana, faço jus ao signo. Sonhadora, emotiva e receptiva. Jornalista (diplomada sim), apaixonada por comunicação, animais, natureza e por pessoas de bem com a vida.
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7 respostas para As viúvas na Índia

  1. Mari Biddle disse:

    Que bom que vc linkou o post da Denise Arcoverde. Obrigada por divulgar. Como ela diz no post ‘somos todas irmas’. Sao as coisas que a novela da senhora Gloria Perez nao mostra e nem vai mostrar. Sao mulheres, apenas mulheres que a zilhoes de anos vem lutando aqui e ali pelos direitos mais vitais. E ainda assim pelo mundo vemos como nossas irmas sao tratadas como parias apenas por serem viuvas. Obrigada novamente por divulgar Bruna!

  2. brurobiati disse:

    Por nada Mari,não tem nem que agradecer,é mais que minha obrigação de mulher.Comecei assistir o filme,vou terminar agora…
    E vamos lá,algumas lágrimas rolar!

  3. joelma disse:

    oi Mari mim endetifiquei muito com a sua Smateria .
    gostaria muito que vc entrasse em contato com a gente temos uma associaçao de viuvas e viuvos em Natal RN
    end avenida rio branco nº 846 bairro cidade alta centro
    tel; 84 3201-6651 ou 84 9926-5723
    email; joelma_regina@hotmail.com estamos aguardando o seu contato agradeçermos desde ja.

    Sandra Santos
    Fundadora da associaçao das viuvas e viuvos do Rio grande do norte.

    Natal,16 de janeiro de 2011

  4. lucia lima lins disse:

    ola ! bruna obrigada por nos propocionar uma materia tao linda ,onde todas as pessoas deveriam conhecer,a nossa luta ,sozinha nesse mundo ,onde perdemos nosso amado ,em incidentes da vida,onde ficamos sem proteçao governamental ,e ate as vezes sem a proteção da familia ,deus te abençòi ,e continue a lutar por nos ,nos faça feliz,mostre ao mundo que viuvas unidas permaneçem unidas..beijocas…

  5. Larissa disse:

    Oi Bruna! Assisti recentemente a esse filme e sei bem do nó na garganta que vc falou. Tenho procurado na internet algumas coisas sobre a situação atual das viúvas na Índia e achei o seu blog nessa procura. Parabéns pelo post!

  6. terezinha disse:

    assisti esse filme também fiquei dias, com uma sensação estranha no meu coração uma mistura de tristeza e impotência.
    saber que essa mulheres vivem nessa situação em nome de uma religião hipócrita, que satisfaz apenas interesse humanos.onde Deus nunca esteve presente nessa brutalidade que fazem com as viúvas.no filme umas das coisas que elas passam a questionar é isso.vi uma criança que nem sabe o que é casamento.fico pensando o que a comissão dos direitos humanos esta fazendo a respeito.a qui vai um pequenos trecho do estatuto;

    A Assembléia Geral proclama

    A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

    Artigo I

    Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

    então eu pergunto será que eles estão mesmo fazendo alguma coisa a respeito ou eles também não enxergam essas pobres mulheres.

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