Um grande poeta, de caráter feito de doçuras sentimentais, com impressionante poder de despertar em cada um de nós as belezas dos sonhos, os encantos da vida, a maravilha dos dias infantis, a poesia que mora dentro e fora de cada um de nós, digamos logo: o poeta Casemiro de Abreu, entre os seus numerosos poemas, tem um dedicado a esse indescritível e indefinível sentimento: a Saudade. Desde os bancos escolares primeiros, Saudade é aprendido, decorado, recitado pelos alunos graças à compreensão dos mestres que também amam, adoram e transmitem o poema, pois ele tem o condão de impressionar as pessoas em qualquer idade e com qualquer grau de instrução.

Transcrevo aqui apenas alguns versos da poesia, pois sei que todos os leitores guardam-na de cor por inteiro na memória e no coração. São os versos iniciais: “Oh! que saudades eu tenho / da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais. // Que amor, que sonhos, que flores / naquelas tardes fagueiras, / à sombra das bananeiras, / debaixo dos laranjais”. O poema é imenso em seu significado figurativo, uma vez que ele envolve um período da vida em que tudo é alegria, é expectativa, é anseio, é busca, é mistério, como aliás devemos considerar a infância. saudade

Saudade, como vocábulo, só existe no idioma português e o de outras nações não encontraram até agora palavra semelhante para definir esse profundo sentimento, que tem um lugarzinho especial dentro da alma do povo brasileiro, no seio da qual ele guarda as belezas de um significado inexplicável, mas sumamente humano, encarnado com a própria personalidade de cada um. O poema do Casimiro de Abreu nada mais fez do que tentar colocar o termo dentro da gaiola dourada da poesia. E tão bem o fez, tão feliz foi em seu intento, que o “oh! que saudades eu tenho” acabou semeado perenemente e florindo como roseira de um jardim sublime, de continuo, na alma do povo. Apesar dos anos se sucederem sem fim, apesar de as formas de literatura e poesia mudarem muito entre nós, e entre outros povos, o maravilhoso encanto daquela poesia continua vivo, continua perfumando os sentimentos da popularidade cultural, povoando corações sonhadores e saudosos de seus tempos de infância.

Saudade! Quem nunca foi vítima dessa maravilhosa, mas brasileiramente única maneira de recordar, de relembrar, de sentir, de reviver, de chorar, de sorrir, de querer, de não querer, de fugir e de procurar, tudo ao mesmo tempo, tudo bem dentro de nós, num desejo de reviver aqueles atos e fatos tão profundamente calados e colados no âmago de nossa personalidade, e que vêem, mesmo decorridas dezenas de anos, à tona de nossas recordações , como flor cujas raízes tristonhamente alegres adentram a profundidade do mar da vida, mas está sempre aberta aos raios do sol da existência como se o tempo recuasse para nos presentear com a graça da presença do ontem, deliciosamente feliz, ou deliciosamente triste.

Saudade! Dou um doce a vocês, leitores deste blog, se me provarem que nunca tiveram saudade. Que essa maravilhosa personagem da alma nunca os visitaram, nunca trouxe braçadas de recordações, nunca sentou ao seu lado, por minutos, horas, dias, anos, desfilando numa confidência recordativa, onde havia lágrimas alegres, ou alegrias lacrimosas, um pouco ou um muito do passado, de acontecimentos idos e vividos absorvidos pelo tempo, de lembranças que a vida jamais apaga e a memória jamais esquece.

A saudade é um arquivo sentimental interminável. Por isso quando ela resolve nos visitar haja tempo e coragem para ouvir mais uma vez as historias já relidas, para envolver-se como se fosse a realidade de hoje, aquilo que não mais é, nem será nunca, porque a Saudade é apenas sonhos que se apagam ao chegar das lágrimas.

Anúncios