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Com os casos de Eliza Samúdio e Mércia Nakashima sendo exibidos na tv a todo momento, vale a pena mostrar essa reportagem interessante que o jornal Diário da Região fez  sobre mulheres que foram mortas por seus companheiros.

Para quem não sabe, eu vivo em uma pequena cidade na região de São José do Rio Preto,  Jales.

Quinze mulheres foram mortas por seus maridos, companheiros ou pais na região de Rio Preto nos sete primeiros meses de 2010. O número é 25% maior que o registrado no ano passado inteiro, quando 12 mulheres foram assassinadas.

Neste ano, duas mulheres foram mortas a cada mês, ou seja, o dobro da média mensal observada em 2009. Na maioria das vezes, os crimes são praticados com requintes de crueldade: grande parte das vítimas morreu com golpes de faca em várias partes do corpo ou receberam tiros no rosto.

Recentemente, dois casos de violência contra a mulher chamaram a atenção do Brasil. A morte brutal da modelo Eliza Samúdio e da advogada Mércia Nakashima teriam sido motivadas, segundo a polícia, por questões financeiras e ciúme.

Para o sociólogo especialista em violência José dos Reis Santos Filho, da Unesp de Araraquara, estes crimes refletem uma sociedade machista, em que os homens têm dificuldade em aceitar a mulher como igual e tentam mostrar seu domínio pela força.

“As mulheres conquistaram um espaço que era apenas masculino há algumas décadas. Elas têm trabalho e voz ativa nas decisões domésticas. O homem sente-se ameaçado por essa postura. Por isso, qualquer aparência de ameaça pode desencadear uma reação violenta”, diz o especialista.

Uma discussão ocasionada por um chip de celular provocou a morte de Sonia Regina Casagrande Lima, 48 anos, em Mirassol. No dia 18 de fevereiro, a copeira chegou do trabalho e questionou o marido Aparecido de Souza Lima sobre a peça eletrônica. Irritado, Aparecido foi até a cozinha, pegou uma faca e atingiu o peito da mulher, com quem era casado há 30 anos.

O fim dos relacionamentos ou o ciúme excessivo também desencadeiam reações violentas. “Os crimes passionais são, em geral, motivados pela dificuldade em aceitar a ruptura de um relacionamento, suspeitas de adultério e desejo de vingança, aliados à crença masculina de que a mulher é propriedade do homem”, diz a psicóloga Mara Lúcia Madureira.

A diarista Daiane Maíra Rodrigues Pereira, 24 anos, morreu no dia 4 de junho em Olímpia com uma facada no pescoço. A jovem estava grávida de quatro meses. O acusado do crime é o ex-namorado dela, Hudson Lupércio dos Santos Pereira, 20 anos. “A perda que eu sofri foi muito grande. O que ele (ex-namorado) fez não tem explicação. A vida é uma só. Eu espero justiça”, diz a mãe de Daiane, Vera Lúcia Rodrigues, 43 anos.

A característica violenta dos crimes é sinal de ódio, segundo a psicóloga Mara Lúcia. “Trata-se da expressão de vingança que o criminoso sente por não saber lidar com perdas e frustrações. O homem age dessa maneira para vingar-se do sentimento de orgulho ferido ou por julgar sua honra comprometida pelo abandono ou infidelidade da mulher.”

Para a delegada Margarete Franco, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Rio Preto, alguns crimes poderiam ser evitados caso as esposas denunciassem o companheiro. “Temos uma equipe que pode mediar a relação do casal para tentar acabar com as agressões. Se necessário, podemos afastar a mulher e os filhos de casa.”

Margarete afirma que a procura das mulheres pela delegacia tem aumentado, mas a maioria das denúncias é arquivada a pedido das próprias vítimas. “Muitas ainda são dependentes economicamente do marido, ou dependem emocionalmente. Por isso, acabam voltando a viver com os agressores.”

No primeiro semestre deste ano, a DDM de Rio Preto instaurou 398 inquéritos para apurar violência contra mulheres. No mesmo período de 2009, foram 331. A delegacia solicitou 270 medidas protetivas para impedir que os agressores se aproximem da mulher e dos filhos.

Caso mais chocante teve três mortes

Denunciado pelo Ministério Público de Rio Preto por triplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver, o aposentado Nilson de Andrade Justino, 47 anos, é réu em um dos casos policiais mais chocantes deste ano. Justino foi preso em 24 de janeiro, um dia depois de matar a marretadas e decapitar com uma serra de pedreiro a mulher e as duas filhas, no bairro Solo Sagrado, em Rio Preto.

Justino passou por exame psiquiátrico por determinação da Justiça e foi apontado como comprometido mentalmente pelos médicos que produziram o laudo. Segundo o promotor José Américo Ceron, ao final do processo o juiz pode declará-lo inimputável com base no laudo, ou seja, isento de pena em razão de doença mental.

O juiz pode determinar que Justino vá a júri popular. Nesse caso, pode pegar pena de até 70 anos de prisão. Caso seja declarado inimputável, a Justiça aplicará medida de segurança, que consiste em internação em casa de custódia e tratamento por três anos. Depois desse período, será submetido a novo exame.

Os corpos de Lucelena de Sousa Pinheiro Andrade Justino, 40, e das filhas, Tatiana, 23, e Mariana, 18, foram encontrados por um vizinho, que estranhou o silêncio e resolveu entrar na residência da família. Depois das mortes, o aposentado ficou o tempo todo dentro do imóvel, junto com os corpos, até o momento em que foi preso.

A possibilidade de ele não ir a júri popular deixa preocupada a família das vítimas. “Tenho certeza de que tudo o que ele fez foi premeditado. Eu ainda confio na Justiça”, afirma a irmã de Lucelena, a dona de casa Tânia Donizetti Pinheiro, 42. “A crueldade que ele usou foi enorme.” Cinco meses depois da perda da irmã e das duas sobrinhas, Tânia conta que sua família faz tratamento psicológico para tentar se reerguer. “A dor não tem fim. A saudade aumenta a cada dia com a ausência delas.”

O promotor afirma que na próxima fase do processo o juiz da 3ª Vara Criminal, Diniz Fernando Ferreira da Cruz, vai ouvir as testemunhas. “Se os depoimentos não se encaixarem com o resultado do exame, vou pedir um novo exame.” Justino está preso em Andradina.

Agressores pegam até 19 anos de prisão

Pelo menos quatro homens foram condenados em 2010 por ter matado suas mulheres e ex-companheiras em Rio Preto e região. As penas variam de 15 anos a 19 anos e dois meses de prisão. Entre os homens que sentaram no banco dos réus e saíram condenados está o ajudante Anderson Costa Gonçalves, 40 anos.

A Justiça determinou ao ajudante pena de 19 anos e dois meses em regime fechado por atear fogo no corpo de sua então companheira, Maria das Graças Vega Paulucci. O crime aconteceu no dia 21 de janeiro de 2009. O ajudante não aceitava o fim do relacionamento, segundo a Promotoria. A mulher teve 80% do corpo queimado e ficou internada cinco dias no Hospital Padre Albino, em Catanduva.

Segundo o promotor criminal Marcos Antônio Lelis Moreira, que atua no Tribunal do Júri de Rio Preto, a maioria dos homicídios que passam pelo júri é relativa a crimes passionais. “Geralmente o marido não aceita uma separação ou comete o crime em razão de uma traição.”

Muitos casos têm requintes de crueldade e frieza, o que demonstra ter sido premeditados. Moreira cita como exemplo um réu condenado no ano passado a 14 anos de prisão por ter matado a mulher com quatro tiros. O casal estava em processo de separação. No dia do crime, o autor tomou uma cerveja enquanto aguardava a vítima. A mulher fazia o mesmo percurso todos os dias. Quando ela estacionou o carro, o réu atirou.

Na opinião do promotor criminal José Américo Ceron, que também atua no Tribunal do Júri de Rio Preto, os principais fatores que levam os homens a matar suas companheiras são intolerância, falta de estrutura no relacionamento e sensação de poder sobre a mulher. Ceron afirma que a maioria das condenações envolvendo crimes contra a vida de mulheres supera os 12 anos. “Muitos crimes são motivados por ciúme e praticados sem possibilidade de defesa da vítima, fatores que aumentam a pena.”

O promotor Ceron lembra que uma das condenações chegou a 49 anos de prisão. O acusado era Nelson Dias de Oliveira, que matou a mulher, Nereide Aparecida de Carvalho, e tentou matar os filhos trigêmeos de 10 anos, em 14 de outubro de 2005, em Engenheiro Schmitt.

Denúncias

Neste ano, Claudionor Justino, 39 anos, foi denunciado pelo Ministério Público de Rio Preto e pode ir para o banco dos réus. Ele é acusado de matar a companheira, Solange Calixto de Souza, 33 anos, no último dia 18 de fevereiro no bairro Eldorado. Ela estava grávida e foi morta enquanto dormia. Além de homicídio, Justino responde por aborto. Os dois eram usuários de drogas e bebida alcoólica.

“O álcool e outras drogas potencializam o sentimento de força do homem e diminui a tolerância e o diálogo entre o casal”, afirma o delegado seccional de Rio Preto, Jozeli Curti. Segundo a delegada Margarete Franco, da Delegacia de Defesa da Mulher, de Rio Preto, parte dos crimes ocorre quando o homem está sob efeito de entorpecentes.

Mércia e Eliza comovem o País

Eliza Samudio e Mércia Nakashima protagonizaram histórias que recentemente chocaram o país. A primeira, ex-amante do goleiro Bruno Souza, do Flamengo, está desaparecida desde o início de junho. Apesar de o corpo não ter sido encontrado, para a polícia as provas incriminam o goleiro, que está preso.

O atleta deverá ser indiciado como mandante do sequestro e assassinato da ex-amante, com quem teria um filho. Bruno está preso numa penitenciária em Contagem (MG). Outros cinco suspeitos de participar no crime estão no mesmo local. Um primo de Bruno, de 17 anos, disse à polícia que Eliza foi estrangulada.

A advogada Mércia foi assassinada no dia 23 de maio. O principal suspeito é o ex-namorado, o PM aposentado Mizael Bispo de Souza. Laudo do exame necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo apontou que ela morreu afogada. Segundo a polícia, Mércia levou um tiro no braço esquerdo. A bala atravessou o braço e atingiu seu maxilar.

Fonte:  Diário da Região

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