O anjo protetor das quatro patas

Caminhando pelas ruas da cidade de Jales sob um sol escaldante digno de causar inveja no Deserto de Danakil na Etiópia, não é raro encontrar algum animal abandonado à própria sorte.

São cachorros e gatos que um dia tiveram um lar e uma família que os amaram e deram carinho, e que por causa da velhice anunciada ou até mesmo a falta de um simples tufo de pêlo são descartados como um sapato velho. Ninguém nasce e sobrevive sozinho neste mundo cada vez mais louco.

Mas como em toda nação existe um super-herói, nossa cidade também há. São as meninas super-poderosas, Maria Virginia Vieri, Alzira Mara de Azevedo e Elmara Fernandes de Matos. As advogadas fazem parte da Comissão do Meio Ambiente da 63ª subseção da OAB de Jales. “Tudo o que envolve o meio ambiente, proteção e defesa estão vinculadas à ele, trabalhamos a conscientização”, explica Maria Virginia. Todavia Maria Virginia realiza um trabalho à parte de proteção animal, este por amor, pois sabe que todo ser que tem vida sente dores, principalmente aqueles que não podem falar.

Ser protetor de animais te aproxima da santidade, mas muitos pensam que eles não fazem nada da vida, que somente ficam atrás gatos e cachorros.

Maria Virginia conhecida como Vivi é a típica mulher jalesense que trabalha, cuida da casa, do marido e das filhas, e se transforma em três para poder ajudar os animaizinhos indefesos.

Em seu escritório no 2º andar de um dos poucos prédios que existem em Jales, entre um trabalho e outro , Vivi faz a sua boa ação do dia, aliás, suas várias boas ações. Dr. Pet que me desculpe, mas nossa Vivi é nobre desse título.

Vivi

As redes sociais da internet são ótimas ferramentas para o trabalho divino da advogada. São nos 140 caracteres do microblog Twitter que ela divulga e repassa várias mensagens de conscientização da proteção animal e da leishmaniose. O site de relacionamentos Facebook com seu design simples é fácil contribui muito também para essa atividade, é nele que Vivi posta seus links com fotos sobre simpósios e palestras de conscientização.

Certo dia o telefone de Vivi toca, era uma pessoa pedindo para ela resgatar um cachorro que fora atropelado na Rodovia Euclides da Cunha, aquela mesmo, a estrada da morte onde morrem pessoas todos os dias. Você pode imaginar o que acontece com animais indefesos¿

E lá se foi o anjo protetor para mais uma missão de resgate e conscientização. Quando chegou ao local ela se deparou com o cachorro sentado, haviam colocado até comida para ele, mas o coitadinho sentia muita dor. Nessas horas de sofrimento o animal pode ficar agressivo e tentar atacar quem está apenas querendo ajudá-lo. Antes de ir para o local do atropelamento, Vivi pediu a ajuda de um funcionário de uma clinica veterinária. “Os veterinários são compreensíveis com a gente, ajudam muito, é realmente uma parceria.”

Com seu bondoso coração a protetora resgatou o cachorro machucado e cuidou dele. Ele está em um local sob cuidados, mas este é mantido em segredo, porque se as pessoas souberem desse lugar, elas começam a abandonar os animais como se fossem objetos descartáveis. Sabe aquela velha história de jogar o problema para cima de outras pessoas¿ É isso que acontece com o individuo sem amor no coração, sem o mínimo de respeito e carinho pelos animais.

O cachorro permaneceu por um tempo em um quadrado pequeno porque não podia caminhar, ele teve alguns ligamentos rompidos de um lado, do outro lado quebrou a bacia (pelve) e necessitava calcificar essas lesões. Depois de curado, o peludo foi levado pela protetora para um local mais espaçoso e com grama verdinha. Hoje ele anda para qualquer lugar, todo tortinho, mas o importante é que se recuperou.

Vivi relembra muitas histórias bonitas e interessantes sobre seus resgates, algumas com finais felizes e outras nem tanto.

Impossível não recordar da Vitória. A pastora-lata adulta, uma mistura de pastor-alemão e vira lata que foi atropelada e jogada no canteiro central da principal avenida da cidade, permanecendo por um dia inteiro, sofrendo todas as dores possíveis que um carro pode causar quando se choca contra você. Imagine um animal que não pode falar a aflição que está sentindo.  Telefonaram para Vivi, e o anjo protetor entrou em ação mais uma vez, se deslocou da sua residência até o local do acidente para tentar salvar mais uma vida canina. “A cachorrinha estava toda machucada e imaginei que ela não iria poder mais andar.” A advogada tem algumas colegas que ajudam nesses resgates, no caso da Vitória, ela teve o auxílio de uma amiga. Elas adotaram a cadela e colocaram-na em uma casa.

Vivi ofereceu todos os cuidados possíveis à Vitória para sua recuperação, proporcionando que a pastora-lata colocasse suas patinhas novamente no chão. Não foi fácil para a Vitória voltar á caminhar, ela enfrentou muitas dificuldades, tinha convulsões por causa do acidente, foi um período difícil, mas que com muita vontade e dedicação das protetoras foi possível.

Algum tempo depois da recuperação completa, Vitória ganhou um presente, um companheiro para sua alegria, o Francisco. “Ela nos recebia sempre com muita alegria.” A advogada permaneceu com ela até o fim de sua vida. “Quando ela morreu ficamos muito tristes, era nossa paixão, ela foi muito especial para nós”.

Em sua residência a advogada tem quatro cachorros, dos quais cuida com muito carinho e atenção. Como a casa é um lar para pessoas e se Vivi fosse acomodar todos seus protegidos, com certeza não haveria espaço suficiente para tantas patinhas. Pensando sobre isso e no bem estar dos cachorrinhos, ela mantém vários outros animais em um local com a ajuda de algumas amigas. São animais maltratados, abandonados pelos donos, e agora com a questão da leishmaniose as pessoas entram em paranóia pensando que qualquer cachorro doente possa ter a doença. Tentam matar os bichinhos, dando-lhes veneno como chumbinho, esse mesmo, usado para matar ratos e que tem a comercialização proibida.

A ignorância e a falta de informação faz com que o ser humano tenha atitudes inaceitáveis. Vivi diz que tem um outro cachorro que até está em uma clinica porque tentaram tirar a vida desse ser indefeso. No local onde o machucaram, na face, foi atingida por bichos, judiaram muito do pobre animal. O cãozinho não tem a metade da face, apenas enxerga do outro lado, contudo é um animal bonito, bem cuidado e seu ferimento já foi cicatrizado.

Desde que suas filhas Danielle e Thaís eram pequenas, a advogada tem esse hábito de cuidar e proteger os animais. Apareciam gatos e cachorros em casa, e Vivi os adotavam, mais tarde vindo a ser despachados pelo seu esposo quando ela viajava para visitar a família em Brasília.

Como aquele velho ditado que diz: “Filho de peixe peixinho é”, não seria diferente com as filhas de Vivi. Recentemente sua filha que mora em Santos socorreu um senhor que tinha seis cachorros e precisava sair da casa onde vivia. “É muito difícil o socorro, não tem onde abrigar os animaizinhos, às vezes não tem dinheiro para comprar remédio, uma correria.”

Como disse o médico e filósofo alemão Albert Schweitzer ”Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante”.

E complementa Vivi: “A educação é a base de tudo na vida , quando se educa, deixa de ser ignorante e passa a tratar os animais como eles merecem”.

 

  • Fiz esse texto-conto para um trabalho da faculdade. Entrevistei a Vivi e o resultado foi esse. Espero que todos gostem, especialmente a personagem principal da história.
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Sobre brurobiati

Pisciana, faço jus ao signo. Sonhadora, emotiva e receptiva. Jornalista (diplomada sim), apaixonada por comunicação, animais, natureza e por pessoas de bem com a vida.
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4 respostas para O anjo protetor das quatro patas

  1. Uma justa homenagem para esta mulher admirável. Conheço a Vivi há quase 3 anos, mas é pouco. Mas neste tempo, NUNCA ouvi um lamento, uma lamúria, um pensamento pessimista. Ao contrário. Está sempre de bom humor, encontra sempre uma palavra agradável para nos levantar o moral. E mima. Animais e humanos e com frequência. Mãe de todos. Amiga.
    Só não venha dizer que o flê não é culpado. Aí conhecerão o “lado negro da Força” que virá dela. Flê é o nome íntimo para o flebotomínio o vetor da leishmaniose visceral americana. Vivi o nomeou “flê” depois que foi apresentada oficialmente ao sujeito ( ou seria fêmea ? ). Ele é tão pequeno que nem todos o enxergam a olho nú.
    Mas o que importa mesmo, é que Jales não sabe o privilégio que tem, pois uma pessoa como a Vivi não é muito fácil de encontrar. Apesar de pequena no tamanho ( como eu), é de uma bondade que extravasa não só seu corpo. Ocupa todo o ambiente por onde passa.
    Adorável, competente e bondosa Vivi ! Que São Francisco te abençoe sempre !

  2. Vivi Vieri disse:

    Bruninha, chorei!
    De emoção, pelas suas palavras,
    pelas lembranças dos animais que passam por nós,
    por não ser um anjo e seria tão bom se fosse, mas quem sabe se os anjos nos aceitarem para trabalhar com eles, espero apenas que não se arrependam….rsrsrs……
    pelas palavras do meu querido amigo de espírito e de coração e consultor de assuntos aleatórios, Fowler,
    e pelos animais que tanto precisam de nós.
    Agradeço em nome dos animais e de todos os que cuidam, deles, pois tenho certeza que indiretamente fez uma homenagem a todos.
    O que fazemos é movido pelo mais simples e ricos dos sentimentos, amor!
    E que o flê nos deixe em paz e volte ao seu lar doce lar, o mato, pois anda fazendo muito estrago….
    Que papai do céu te ilumine sempre!!!
    gracias!!!
    beijim
    Vivi

  3. Pris disse:

    No meio de tanta crueldade há sempre pessoas boas e dignas.
    Bjins

  4. Maria de Fatima Sawaya disse:

    Precisamos de ajuda aqui na cidade de Atibaia , a Secretária do Meio Ambiente, acha natural uma denúncia de maus tratos, eu fiz denúncia sobre 6 cães, 1 pavão, 11 gansos , 2 tartarugas… todos em cativeiro sem direito a liberdade, todas as denúncias foram arquivadas, fiz o caminho certo, isso vem se arrastando desde 2008, com denúncia de vizinhos. Fizemos fotos, avisamos que não pode ter ave (Pavão) em cativeiro e mais mil coisas tudo foi em vão.

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