Delegado especialista em crimes cibernéticos analisa caso de espionagem dos Estados Unidos ao Brasil

Em maio deste ano o mundo ficou surpreso com as revelações feitas pelo ex- técnico da CIA – Agência Central de Inteligência Americana, Edward Snowden, sobre o vazamento de informações sigilosas de segurança dos Estados Unidos e a revelação detalhada de alguns dos programas de vigilância que o país usa para espionar os norte-americanos, países da Europa e da América Latina, inclusive o Brasil, fazendo o monitoramento de conversas da presidenta Dilma Rousseff com seus assessores. Snowden teve acesso às informações que vazou para a imprensa quando prestava serviços terceirizados para a Agência de Segurança Nacional (NSA) no Havaí.
Para falar sobre esse assunto polêmico que tem tomando conta dos meios de comunicação brasileiros, conversamos com o professor universitário e delegado de polícia, de Santana da Ponte Pensa, Higor Vinicius Nogueira Jorge, especialista na investigação de crimes Cibernéticos e em Segurança da Informação.

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Bruna – Tecnologicamente falando, o que acarreta esse esquema de espionagem dos Estados Unidos, revelado há alguns meses pelo ex-analista de inteligência norte americano Edward Snowden?

Delegado Higor – Na verdade o que ocorreu foi que as pessoas comuns passaram a ter conhecimento das atividades de inteligência conduzidas por alguns órgãos estratégicos do governo dos Estados Unidos, principalmente pela Agência de Segurança Nacional do país, também conhecida pela sigla NSA, que monitora todo o tráfego na internet, ou seja, tudo que os usuários fazem por intermédio da rede mundial de computadores.

Antes destes fatos virem à toda, toda informação sobre eventual monitoramento da internet pelo governo norte americano era considerada teoria conspiratória e as pessoas não levavam isso muito a sério.
Com a divulgação desses fatos as pessoas passaram a compreender a dificuldade de ter a privacidade e a intimidade preservadas quando se utiliza a internet.

Bruna – Mas tratando-se de Brasil, o país possui tecnologia adequada para proteger os meios de comunicação dos cidadãos comuns e também do governo?
Delegado Higor – Proteger a comunicação entre pessoas, ou melhor, proteger a segurança da informação, não é como adquirir um produto, não se adquire um “pacote de confidencialidade” em um supermercado, pois na verdade é um processo, um processo muito complexo, que depende do empenho de todos os componentes envolvidos. Além disso, é preciso se considerar que essa confidencialidade não é absoluta. Recentemente o governo anunciou que estuda a criação de um e-mail criptografado e gratuito que seria oferecido aos brasileiros. Essa é uma interessante iniciativa no sentido de diminuir a possibilidade de monitoramento eletrônico.

Bruna – O senhor acha que pode surgir uma crise entre Brasil e Estados Unidos por conta das revelações da espionagem sobre a presidenta e seus assessores?
Delegado Higor – Existe uma crise instalada em razão da divulgação deste episódio de espionagem eletrônica praticada pelo governo dos Estados Unidos e, cada vez que a imprensa noticia um fato novo relacionado com isso, mais essa crise se agrava, inclusive o governo tem divulgado que pretende apresentar o problema para Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar disso, não acredito que essa crise será capaz de causar uma ruptura no relacionamento entre Brasil e Estados Unidos, principalmente porque existem diversos interesses envolvidos na relação entre esses países.

Bruna – Como o Brasil e Dilma foram espionados?
Delegado Higor – Segundo o que foi preliminarmente divulgado na mídia a NSA promoveu o monitoramento dos telefones utilizados pela presidente Dilma Rousseff, dos e-mails e da utilização da internet por eles, por intermédio do monitoramento dos protocolos de internet (IPs) utilizados. Assim, pode-se dizer que as principais atividades realizadas pelo governo brasileiro, pela internet ou por telefones, eram monitoradas.

Bruna – Como reagiu o governo brasileiro?
Delegado Higor – O governo brasileiro inicialmente solicitou esclarecimentos do governo norte americano sobre o monitoramento realizado indiscriminadamente contra autoridades do governo e a Petrobras e também exigiu medidas capazes de evitar a possibilidade de atos dessa natureza.

Bruna – Qual a real motivação desta espionagem?
Delegado Higor – O monitoramento eletrônico foi realizado com a justificativa de proteger os Estados Unidos de ameaças terroristas e de outras naturezas, mas na verdade existe uma motivação política, econômica e estratégica que despertou a necessidade de realizar a espionagem eletrônica.

Bruna – Muito se fala de um “pedido de desculpa” por parte do governo norte americano. O que o senhor acha disso?
Delegado Higor – Essa questão do governo norte americano se desculpar seria uma medida unicamente diplomática que não teria reflexos capazes de impedir que outros casos de espionagem sejam realizados.

Bruna – Esse tipo de “espionagem” mais sofisticada acontece na região? Por exemplo, entre as empresas, ou apenas para vasculhar a intimidade das pessoas?
Delegado Higor – Em nossa região não temos observado casos proeminentes de espionagem industrial ou comercial, bem como tem sido incomum reportarem para os órgãos de investigação casos de violação de intimidade da pessoa pela internet. O que observamos bastante, em nossa região, são casos de crimes contra a honra, ameaças, fraudes eletrônicas e crimes contra crianças e adolescentes praticados por intermédio de dispositivos de informática.

Bruna – Como posso saber se estou sendo espionada ou invadida?
Delegado Higor – É muito importante ter instalado em seu computador um bom antivírus, preferencialmente pago, também é necessário que o sistema operacional e cada um dos programas do computador sejam configurados para atualizarem automaticamente. Também é imprescindível que o usuário do computador tome muito cuidado com os sites que acessa, com o que publica nas redes sociais, evitando sempre instalar no seu computador programas oferecidos em sites não confiáveis. Qualquer alteração no funcionamento do computador, como panes com frequência, demora no funcionamento, etc são sinais de que algo errado está ocorrendo.

Bruna – Há alguma maneira do cidadão comum pelo menos tentar se proteger da exposição de dados?
Delegado Higor – O cidadão comum deve ter consciência que todo conteúdo publicado na internet pode permanecer na referida rede indeterminadamente. Por isso devem tomar muito cuidado com as informações pessoais, comentários ou fotos publicadas nas redes sociais.
Além disso, recomenda-se a utilização de programas de código aberto, também chamados de open source e da criptografia com o objetivo de codificar as informações prestadas pela internet.

Bruna – Como posso denunciar uma situação de invasão?
Delegado Higor – Se a invasão do sistema consistir em crime, como por exemplo, se houver enquadramento na lei que trata da invasão de computadores ou em alguma outra Lei Penal, a vítima deve procurar uma Delegacia de Polícia para que o crime seja investigado. O mesmo acontece em relação a outros crimes que tenham sido praticados pela internet.

*Entrevista que fiz com o delegado Higor Jorge, especialista na investigação de crimes Cibernéticos e em Segurança da Informação.

 

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Sobre brurobiati

Pisciana, faço jus ao signo. Sonhadora, emotiva e receptiva. Jornalista (diplomada sim), apaixonada por comunicação, animais, natureza e por pessoas de bem com a vida.
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